GANESH CHATURTHI
Considerando que alguns deuses hindus tem mais
de quatro braços e para cada um [uma mão]; é uma mazela dizer que comecei
minha odisseia de devoção à Ganesha, sem saber
onde colocar as minhas. Apenas duas.
E por 11 dias, passei minhas noites em um apartamento
no suntuoso bairro de Vila Nova Conceição, convivendo e aprendendo
com um pequeno [mas devotado], grupo de indianos radicados no Brasil.
Altar e ponto de encontro, promovidos pela
família de um comerciante que se tornou próspero em dez anos por aqui e que a
princípio finalizava os dias de comemoração derramando a murti [escultura para devoção] em pleno lago do Ibirapuera.
Já toda logística do Festival, promovida por ele e seus amigos, que dividem as salas de
um prédio comercial na 25 de Março.
E eu, que estudei o passo certo para dar inicio
a este blog, não vejo outra forma mais perfeita, que compartilhando um pouco algumas
impressões que ficaram deste capítulo histórico em minha vida.
Há cinco anos tento ser um hinduísta, vezes
torto, vezes deslocado. E bem deslocado. Deslocado por um eixo gigantesco, que
separa as pessoas do mundo em: orientais ou ocidentais. E como fazer quando seu
corpo nasce num canto e seu coração em outro?
E se para nós Shiva muitas vezes é aquela “deusa
hindiana” e Ganesha aquele deus “com cabeça de elefante”, meus primeiros passos
fugiram destes clichês equivocados e foram iluminados por uma Devi [deusa] em
plena Festa das Luzes. Era meu primeiro Diwali, minhas primeiras preces para
Lakshimi, um novo ano de uma nova vida que começava bem ali: na Câmara do
Comércio de São Paulo.
Vieram outros eventos e entre um puja aqui, um
arati acolá, surgiu o convite para esta comemoração. Um Ganesha Chaturti
promovido pela comunidade Indiana.
Fui munido de companhia e chegando dei de cara
com outros brasileiros perdidos no saguão do edifício e no real entendimento do
que faziam ali.
Pegamos o elevador tomado pelo perfume do curri
e cardamomo, que parecia mais a cozinha de um restaurante exótico que um meio
de locomoção.
Passando um pequeno hall, cheio de sapatos e
sandálias e atravessando uma cortina de tiras de tecido e miçangas, chegou a
hora de se apresentar aos anfitriões e não se desmanchar diante os olhares
curiosos dos donos da festa: os indianos.
No começo pedi ajuda aos Santos, fiz mandinga
promessa e acabei tentando evocar algum GPS cósmico que me guiasse em uma sala,
apenas uma sala de um apartamento. Porque até saber onde se sentar: vira
desafio. Aí você usa a imaginação, criatividade e olha de um lado vê homens
sentados e do outro um grupo de mulheres e acredita que a ordem é separação por
gênero. A partir deste momento me agarrei numa das poucas certezas protocolares
que pro meu desespero foi quebrada uns quatro dias depois quando o grupo se
misturou. Ou seja, eu não sabia nada. Mas sentar, o que é sentar, quando todos
se levantam e começam o ritual diário?
Vamos lá. A programação quase sempre foi assim:
chegávamos, encontrando um lugarzinho pra se afundar tamanha a timidez, seguido
de dias de coragem, conquistando o título honorário de um dos brasileiros mais
legais do núcleo tupiniquim, seguido de dias de estrelato na hora de comandar
um passatempo.
Passatempo é quase que literalmente ocupar um
espaço com histórias, cantos ou preces que evoquem á deidade da vez.
No meu caso, um dia cantei para Shiva e em outro
contei da disputa entre Ganesha e Skanda [seu irmão], para saber quem era o
mais forte ou poderoso ou quem amava mais seus país.
“Ganesha
e Skanda resolveram disputar alguma
coisa e chamaram seus país: Shiva e Parvati como jurados. O desafio era quem
conseguia dar a volta no mundo e chegar primeiro. Enquanto um percorreu todos as
terras e queimou todas as calorias, Ganesha
rodeou os país considerando que eles eram seu mundo. Ganhou, né?”
Mas era quando a TV de plasma de centenas de polegadas
era ligada e imagens de clipes com os cantos sagrados começavam a tocar que a
festa começava.
Um a um [claro que primeiros os locais], nos
postávamos diante ao altar, herdados de um prato dourado: com mil itens.
E como aquele que com um olho frita o peixe e
com o outro vigia o gato, eu tentava olhar pra cada coisinha que está lá naquela bandeja dourada, enquanto tentava não
errar. E o ritual era girar em sentido horário por algumas vezes diante a
pequena murti do deus.
Mas os dias iam passando e tomado por uma certa
confiança, o que era giro virava meio giro e um completo. Dois, sete giros,
puxar com as mãos a fumaça dos incensos por cima da cabeça, espalhar pelo
altar,... Já me sentia nisso desde que nasci na encarnação passada, quando era indiano.
Seguro, ainda sobrava tempo para ver se os
outros brasileiros iriam acertar. Primeira aposta, vai de mão direita [que é o
certo] ou de esquerda que PÉEE, errou: esquerda nunca.
Esse momento era tão precioso e rápido que eu
quase não tinha tempo de sentir que estava diante a representação de um deus ou
dele mesmo, como preferirem e me perdia na performance, me concentrando pouco
no que estava fazendo ali. Por mais irônico que pareça foi
observando outros devotos que neles consegui projetar todas as bênçãos de Ganesha.
Entre todos, duas senhoras me conquistaram de imediato
e nelas encontrei todas as avós com quem sonhamos.
É óbvio que eu estava lá por Ganesha,
mas tocar com as costas da minha mão direita a barra do sári delas, levando em
seguida, a ponta dos meus dedos até minha testa; para simultaneamente sentir
suas mãos tocarem meus cabelos, era literalmente a benção que todo mundo
precisa para se sentir bem e feliz e hinduísta e netinho.
Como não amar receber um gesto desses, vindo com um
respeito que atravessa mares, culturas, gerações ou laços de sangue?
E todo esse quase meio século que levei para acumular
coragem e repetir esta reverência, vinha perfumado pelos condimentos das
comidas que chegavam na companhia de pequenos grupos que surgiam durante a
prática: em travessas, panelas e potes de plástico colorido.
E se Ganesha remove obstáculos o mesmo não se
pode dizer de pares de sapato. Talvez as pedras de nossos caminhos, mas não
aquela ilha de calçados que crescia a cada dia de comemoração.
Mas entrar ou sair do apartamento não exigia a
logística precisa de outra modalidade: receber a prassada.
A mão esquerda deve ser esquecida, apagada,
deletada principalmente se o assunto é comida. Principalmente se a comida é
prassada.
Mas e se você recebe uma colherada na mão
Resolvi tudo de uma forma bem simples, recebia
na direita e numa tacada levava tudo para a boca até que um dia foram grãos e
tinham umas três castanhas bem durinhas e grandes no meio e eu não percebi ou
seja, demorei uns quinze minutos tentando mastigá-las e um retiro de meditação
foi a forma mais discreta de concluir a missão
Mas quando eu pensava que tinha passado por tudo finalmente chegou sexta-feira.
E após o ritual, migramos para o salão de festa e direto para o cenário
de uma produção de Bollywood
E de repente a pista de dança, cheia de efeitos e luzes, foi tomada pelos
homens. Sim, por homens barbudos, de turbantes, caretas e modernos. Jovens e
outros nem tanto, mas todos, festivos dançando como ninguém o bhangra.
Do mar de sapatos, que cresceu como um Tsunami na entrada do apartamento, parar águas da Represa de Guarapiranga, todos embarcamos numa nave chamada Maísa