sábado, 22 de setembro de 2012


GANESH CHATURTHI

Considerando que alguns deuses hindus tem mais de quatro braços e para cada um [uma mão]; é uma mazela dizer que comecei minha odisseia de devoção à Ganesha, sem saber onde colocar as minhas. Apenas duas.
E por 11 dias, passei minhas noites em um apartamento no suntuoso bairro de Vila Nova Conceição, convivendo e aprendendo com um pequeno [mas devotado], grupo de indianos radicados no Brasil.
Altar e ponto de encontro, promovidos pela família de um comerciante que se tornou próspero em dez anos por aqui e que a princípio finalizava os dias de comemoração derramando a murti [escultura para devoção] em pleno lago do Ibirapuera.
Já toda logística do Festival, promovida por ele e seus amigos, que dividem as salas de um prédio comercial na 25 de Março.
E eu, que estudei o passo certo para dar inicio a este blog, não vejo outra forma mais perfeita, que compartilhando um pouco algumas impressões que ficaram deste capítulo histórico em minha vida.

Há cinco anos tento ser um hinduísta, vezes torto, vezes deslocado. E bem deslocado. Deslocado por um eixo gigantesco, que separa as pessoas do mundo em: orientais ou ocidentais. E como fazer quando seu corpo nasce num canto e seu coração em outro?

E se para nós Shiva muitas vezes é aquela “deusa hindiana” e Ganesha aquele deus “com cabeça de elefante”, meus primeiros passos fugiram destes clichês equivocados e foram iluminados por uma Devi [deusa] em plena Festa das Luzes. Era meu primeiro Diwali, minhas primeiras preces para Lakshimi, um novo ano de uma nova vida que começava bem ali: na Câmara do Comércio de São Paulo.

Vieram outros eventos e entre um puja aqui, um arati acolá, surgiu o convite para esta comemoração. Um Ganesha Chaturti promovido pela comunidade Indiana.

Fui munido de companhia e chegando dei de cara com outros brasileiros perdidos no saguão do edifício e no real entendimento do que faziam ali.
Pegamos o elevador tomado pelo perfume do curri e cardamomo, que parecia mais a cozinha de um restaurante exótico que um meio de locomoção.
Passando um pequeno hall, cheio de sapatos e sandálias e atravessando uma cortina de tiras de tecido e miçangas, chegou a hora de se apresentar aos anfitriões e não se desmanchar diante os olhares curiosos dos donos da festa: os indianos.

No começo pedi ajuda aos Santos, fiz mandinga  promessa e acabei tentando evocar algum GPS cósmico que me guiasse em uma sala, apenas uma sala de um apartamento. Porque até saber onde se sentar: vira desafio. Aí você usa a imaginação, criatividade e olha de um lado vê homens sentados e do outro um grupo de mulheres e acredita que a ordem é separação por gênero. A partir deste momento me agarrei numa das poucas certezas protocolares que pro meu desespero foi quebrada uns quatro dias depois quando o grupo se misturou. Ou seja, eu não sabia nada. Mas sentar, o que é sentar, quando todos se levantam e começam o ritual diário?

Vamos lá. A programação quase sempre foi assim: chegávamos, encontrando um lugarzinho pra se afundar tamanha a timidez, seguido de dias de coragem, conquistando o título honorário de um dos brasileiros mais legais do núcleo tupiniquim, seguido de dias de estrelato na hora de comandar um passatempo.
Passatempo é quase que literalmente ocupar um espaço com histórias, cantos ou preces que evoquem á deidade da vez.
No meu caso, um dia cantei para Shiva e em outro contei da disputa entre Ganesha e Skanda [seu irmão], para saber quem era o mais forte ou poderoso ou quem amava mais seus país.

Ganesha e Skanda resolveram disputar alguma coisa e chamaram seus país: Shiva e Parvati como jurados. O desafio era quem conseguia dar a volta no mundo e chegar primeiro. Enquanto um percorreu todos as terras e queimou todas as calorias, Ganesha rodeou os país considerando que eles eram seu mundo. Ganhou, né?”

Mas era quando a TV de plasma de centenas de polegadas era ligada e imagens de clipes com os cantos sagrados começavam a tocar que a festa começava.

Um a um [claro que primeiros os locais], nos postávamos diante ao altar, herdados de um prato dourado: com mil itens. 
E como aquele que com um olho frita o peixe e com o outro vigia o gato, eu tentava olhar pra cada coisinha que está lá  naquela bandeja dourada, enquanto tentava não errar. E o ritual era girar em sentido horário por algumas vezes diante a pequena murti do deus.
Mas os dias iam passando e tomado por uma certa confiança, o que era giro virava meio giro e um completo. Dois, sete giros, puxar com as mãos a fumaça dos incensos por cima da cabeça, espalhar pelo altar,... Já me sentia nisso desde que nasci na encarnação passada, quando era indiano. 
Seguro, ainda sobrava tempo para ver se os outros brasileiros iriam acertar. Primeira aposta, vai de mão direita [que é o certo] ou de esquerda que PÉEE, errou: esquerda nunca. 
Esse momento era tão precioso e rápido que eu quase não tinha tempo de sentir que estava diante a representação de um deus ou dele mesmo, como preferirem e me perdia na performance, me concentrando pouco no que estava fazendo ali.   Por mais irônico que pareça foi observando outros devotos que neles consegui projetar todas as bênçãos de Ganesha.

Entre todos, duas senhoras me conquistaram de imediato e nelas encontrei todas as avós com quem sonhamos.
É óbvio que eu estava lá por Ganesha, mas tocar com as costas da minha mão direita a barra do sári delas, levando em seguida, a ponta dos meus dedos até minha testa; para simultaneamente sentir suas mãos tocarem meus cabelos, era literalmente a benção que todo mundo precisa para se sentir bem e feliz e hinduísta e netinho.
Como não amar receber um gesto desses, vindo com um respeito que atravessa mares, culturas, gerações ou laços de sangue?
E todo esse quase meio século que levei para acumular coragem e repetir esta reverência, vinha perfumado pelos condimentos das comidas que chegavam na companhia de pequenos grupos que surgiam durante a prática: em travessas, panelas e potes de plástico colorido.

E se Ganesha remove obstáculos o mesmo não se pode dizer de pares de sapato. Talvez as pedras de nossos caminhos, mas não aquela ilha de calçados que crescia a cada dia de comemoração.
Mas entrar ou sair do apartamento não exigia a logística precisa de outra modalidade: receber a prassada.

A mão esquerda deve ser esquecida, apagada, deletada principalmente se o assunto é comida. Principalmente se a comida é prassada.
Mas e se você recebe uma colherada na mão
Resolvi tudo de uma forma bem simples, recebia na direita e numa tacada levava tudo para a boca até que um dia foram grãos e tinham umas três castanhas bem durinhas e grandes no meio e eu não percebi ou seja, demorei uns quinze minutos tentando mastigá-las e um retiro de meditação foi a forma mais discreta de concluir a missão

Mas quando eu pensava que tinha passado por tudo finalmente chegou sexta-feira.
E após o ritual, migramos para o salão de festa e direto para o cenário de uma produção de Bollywood
E de repente a pista de dança, cheia de efeitos e luzes, foi tomada pelos homens. Sim, por homens barbudos, de turbantes, caretas e modernos. Jovens e outros nem tanto, mas todos, festivos dançando como ninguém o bhangra.


Do mar de sapatos, que cresceu como um Tsunami na entrada do apartamento, parar águas da Represa de Guarapiranga, todos embarcamos numa nave chamada Maísa  


[Terras brasilis, águas cosmopolitas]

[Kamal Jit Singh e Harvinder Kaur]

[Em meio aos devotos, Ganesha cumpre o ciclo e se prepara para partir

[Sunil entregando a murti de Ganesha para as águas]

Ver a imagem de Ganesha nas mãos de Sunil ser engolida pelas águas douradas da represa e restar toda beleza que ficou, do convívio com toda essa gente boa ou pela simples estada em um cenário tão onírico é um daqueles momentos de nossa vida que sempre estará presente.

[Elza Cohem registrando tudo para seu blog India Link Brasil]

[Eu, embarcado por toda devoção

[Nem terras brasileiras, nem indianas. Água, elemento que iguala tudo e todos

Talvez seja difícil para muitos entender o que um brasileiro vê nisso tudo, quando não estamos falando de um interesse cultural, mas uma vibração de fé?! Mas pode ser. Pode haver gente desse lado do planeta, que não nasceu lá, mas sabendo que Deuses governam os mundos, também se sentem seus filhos e querem apenas estar onde seu país estão.

HAPPYGANESHCHATURTHI